26 de julho de 2007

FESTA!








Nas pick-ups
As anfitriãs do baile DJ Schneider - em despedida rumo à Bélgica
DJ Novelli - estreando
Mais:
ElCabong, DJ residente da festa Nave
Marcelo Callado - baterista de Caetano na turnê Cê
Ricardo Dias Gomes - baixista e tecladista de Caetano na turnê Cê
Djgo - diretamente do Canadá com seu set nervoso
Saiba mais aqui

23 de julho de 2007

Portifólio

Edição de domingo do jornal O Globo

Favela de faz de contas

Deu no Blue Bus (e na Folha):
Globo vai construir uma favela de 3 milhões para proxima novela das 8

A construção de uma favela cenográfica no Projac vai consumir R$ 3 milhões, diz nota do Daniel Castro hoje na Folha. Será o cenário mais caro de 'Duas Caras', próxima novela das 8 da Globo, que estreia em outubro. O custo é alto, diz a nota, não apenas por conta do tamanho e da importância da favela na trama, "mas também porque será a primeira novela em alta definição (HDTV), o que exige acabamento primoroso e amplitude horizontal dos cenários e locações".
Digo eu:
Existem mais de 16 mil favelas no Brasil [IBGE]. Só pode ser brincadeira uma coisa dessas.

22 de julho de 2007

Domingo

"Faço promessas malucas
tão curtas quanto um sonho bom"
[Cazuza]

A pérola da TV Bahia

Pegando uma ponga no comentário feito por Seo Ari nestante aqui no blog, se depender da cobertura da Rede Bahia [tv, impresso e rádio] ACM desbanca fácil irmã Dulce no posto de Anjo Bom da Bahia. Parcialidade mais que esperada, não é mesmo? Mas de tudo o que eu vi na tv, na internet e nos jornais impressos senti falta de duas coisas: A imagem e O texto. É, porque foram muitas imagens, transmissão ao vivo do sepultamento, muitos offs, várias galerias de foto na internet, várias e várias páginas de jornal e... ... ... nada excepcional, nada comovente, nada digno de Prêmio Esso. Faltou Pedro Bial e Luciano Andrade no time de cobertura, talvez tenha sido isso.

E aquele VT que foi ao ar no Bahia Meio Dia assim que foi feito o anúncio da morte? Aquele que faz a trajetória de vida do senador desde o dia em que veio ao mundo na rua da Independência em Nazaré. O Off que fala sobre a fase acadêmica da Faculdade de Medicina é digno de destaque:

"Tirou notas razoáveis em outras disciplinas, mas sempre dez em política (!)"
Genial, não é mesmo?

A notícia como veio

Quando a morte do senador Antonio Carlos Magalhães foi anunciada às 11h40 da manhã do dia 20 de julho, é certo que todos os jornalistas estavam há dias com o texto pronto no gatilho aguardando apenas a constatação oficial para disparar a manchete mais aguardada dos últimos tempos. O "Globo On Line" foi o primeiro a dar a morte do senador. Às 2 da madrugada desse dia, uma matéria foi publicada, mas como a assessoria parlamentar em Brasília e a família não se pronunciaram sobre o episódio, a matéria acabou saindo do ar logo no início da manhã. No lugar, apareceu uma errata que dizia: Estado de saúde do senador ACM é crítico. Mentira, já estava morto, mas quem garantia? Ou melhor, quem bancaria? Na condição de jornalista, não dá pra sustentar uma informação desse tipo sem o suporte de uma fonte confiável. Mesmo que a revelação seja em off é preciso ter garantia. O "Portal Terra" e o "JB On Line" também anunciaram a morte de ACM ainda de madrugada logo depois de "O Globo On Line" e, por efeito dominó, tiraram a página do ar. Jornalismo on line é assim: um dá, todos dão. Um tira, todos tiram e assim segue até que alguém confirme. Durante todo tempo em que ACM esteve internado no Incor em São Paulo não houve sossego na redação onde trabalho e, devido a relevância do assunto, tenho certeza que ocorreu o mesmo em todas as redações do país. Todos de prontidão. Do blogueiro por hobby ao fechador da primeira página da Folha de S. Paulo, ninguém deixaria escapar tal notícia. Foram 37 dias de apreensão. Nesse tempo ACM morreu e ressuscitou diversas vezes nas mãos dos jornalistas. A cada suspeita de morte, só quem se pronunciava era Neto. Era ele quem atendia o celular a qualquer hora do dia para falar com os repórteres sobre o estado de saúde do avô. A pedido do enfermo, não saia nada da assessoria do Incor. A orientação foi seguida à risca, ninguém ousou contrariar o senador. Nenhum médico, enfermeira, porteiro, um primo distante, nem mesmo a faxineira da UTI. Nenhuma palavra, só Neto falava. Na manhã do dia 20, o celular do deputado pela primeira vez foi desligado. Meses atrás, ele havia dito que não seria o porta-voz da morte do avô. O silêncio de ACM Neto era o indício mais convincente de que tinha chegado o dia. Por volta das 10 da manhã, Noblat se cobriu com a imprecisão do jornalismo on line: Aparelhos mantém ACM vivo. É provável que a morte seja anunciada em instantes. Passa meia hora, uma hora e nada. A reportagem do Correio da Bahia é convocada em peso a comparecer na redação. Nem quem estava de férias escapou. De fato, era o dia. Estariam esperando dar 12h para casar com a abertura do Bahia Meio Dia, cogitou-se. A prioridade era a TV Bahia, imaginava-se. E foi quase isso. Todos de olho na tv, aguardando a vinheta do plantão da Globo, aquela que faz o coração de qualquer telespectador disparar. Mas nada de vinheta, o anúncio oficial foi feito 20 minutos antes de Casemiro entrar no ar.

O dia seguinte

A pessoa vai dormir dez pras seis da manhã cheia de álcool etílico transbordando nas veias. O estado não é over, mas bem que é dose. Joga o vestido em qualquer lugar do quarto, as sadálias ficaram pra trás na sala mesmo. Passa pela frente do espelho e na imagem refletida está escrito: a noite foi divertida. Amanhã, ou melhor, ainda hoje cato tudo, promete a si mesma na tentativa de contrariar a preguiça. A cama de tão desejada parece uma miragem. Basta um passo para alcançar os lençóis limpinhos. Melhor correr, antes que tudo se desfaça. Travesseiro de Marcela para acalmar os sentidos. Cortina fechada, ambiente fresquinho sem ajuda do ar condicionado muito menos ventilador. Mensageiro do vento discreto na janela, ninho perfeito de meter inveja em qualquer passarinho. Sono dos justos. Quer dizer, não é pra tanto. É só um cochilo porque às 10 é hora de ir trabalhar. É domingo, sim, sabemos. Mas tem gente que trabalha domingo. Médico, cozinheiro de restaurante, garçom, agente da SET, guichê de cinema, mocinho que aluga filmes, juiz de futebol, bombeiro, polícia, salva-vidas, carinha do posto de gasolina, caixa de supermercado, motorista de ônibus, taxista, coveiro, piloto de avião, moleque de sinaleira, Faustão... viu aí, não é tão solitário ser jornalista. Pois bem, as horas são contadas e o sono, pelo tamanho da cachaça, promete... promete ser um inferno. Antes mesmo de bater a ressaca, o imprevisível: um martelo desgovernado. Exatamente às 7h30 da manhã de domingo. A pessoa registra, não acredita, põe o travesseiro no ouvido e finge que não é com ela. Deve ser uma parte turbulenta do sonho, despista. Passam três segundos, a realidade volta a tona com uma nova informação: são dois martelos. Um faz toc, o outro faz tac-tac. Juntos eles fazem toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! toc, tac-tac! Assim mesmo sem parar, um eco ininterrupto no juizo. A pessoa levanta no mais perfeito estilo Taz Mania. Rodopia em fúria pela casa em busca de silêncio, cogita até se trancar no banheiro, mas está tudo impregnado. A essa altura sono e nervos já foram para o espaço. Raciocínio ativado, chegou o vizinho novo para ocupar o apartamente debaixo que estava fechado.

21 de julho de 2007

O velório






Hoje no Palácio da Aclamação



A charge

Publicada na edição deste sábado do jornal A TARDE

20 de julho de 2007

Nota da autora:

Gostaria de esclarecer que o laço de fita preto ao lado foi colocado em luto às vítimas do airbus A320 da TAM. Ao contrário do que alguns imaginaram, nada tem a ver com a morte do senador Antonio Carlos Magalhães e antes que alguém se antecipe mais uma vez, sobre esse episódio, faço minhas as palavras de Ari Coelho: "Meus princípios humanitários impedem que eu me regozije pela morte de quem quer que seja".

Imperdível!!!

Charge de Cau Gomez na edição de sábado do jornal A Tarde. Não deixem de conferir.

Comoção carlista


Por volta das 17h, na porta do Palácio da Aclamação, onde será realizado o velório do do senador Antonio Carlos Magalhães, antes mesmo de o corpo sair de São Paulo a caminho de Salvador.

Pra todo mundo ver

Equipe da Rede Bahia, meio-dia no Campo Santo, produzindo a cobertura do enterro com direito a imagens aéreas capturadas por uma grua. Digno de cinema, é mole?

Ser repórter...

... é ter a sagrada folga de sábado suspensa para ficar de plantão na redação
... é trabalhar no domingão (vejam bem, são 13 dias initerruptos na redação)
... é trabalhar das 8h às 20h sem direito a time off para lanchinhos
... é ter a oportunidade de conhecer o coveiro que vai por a mão na pá
... é ir ao Campo Santo antes de todo mundo só para conhecer o metro quadradro mais visado da Bahia nas próximas 48h

19 de julho de 2007

É bem aqui ó!

Hoje de manhã em Valéria

15 de julho de 2007

Domingo

"Existe algo de circular em nossas vidas, e, de repente, nos vemos retornando àquele lugar ao qual juramos nunca mais voltar". Palavras de Juli em Le notti di cabiria me fez lembrar Subúrbio de Chico. "Perdido em ti eu ando em roda".

ESOTÉRICO
(Gilberto Gil)
Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu pra você
Que eu, que dois, que dez, que dez milhões
Todos iguais
Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível
Meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar
Nem ficar tão apaixonada
Que nada, que não sabe nada
Que morre afogada por mim

Mistério

Já fui apegada aos meus sentimentos. Apego no sentido mais literal da palavra. Fui daquelas que diante de uma ligação afeituosa, principalmente quando brotava afeição gratuita, debruçava-me em dedicação banda larga ao ser amado. Vale o mesmo para as causas amadas. A idéia de rompimento me causava pânico. Águas passaram, pontes ruíram. Onde havia amor, passado rancor, brotou vazio e do pedaço de terra seca, com um pouco de água, germinou semente. Fato é: o fim de um relacionamento é tão misterioso quanto o início. O coração tem lá suas razões, banais ou não, reais ou ilusórias. Pra mim sempre foi necessário explicações. Sempre quis entender os meus amores do fim ao princípio. Exatamente nessa ordem porque de início, mesmo quando não vinham flores, sempre sobrava magia capaz de dispensar qualquer teoria. Fui apegada e, paradoxalmente, ainda sou por mais que me esforce em negações em cada linha deste post. Só em tempos de ressentimento consigo cultivar o desdém. O que se é por natureza não muda. Mas só por teimosia repito: fui. E por terapia digo: hoje tenho apego a mim, à minha existência. Não por súbito ataque do ego, mas por estar convicta de que ninguém mais no mundo é capaz de cuidar com afinco e dedicação da nossa alma a não ser nós mesmos. Fora isso, antes que alguém se assuste, resta aqui, dentro de mim, uma fresta no muro das emoções, onde a qualquer momento uma nova paixão pode ser riscada por um rastro de luz... ... ... "mistério sempre há de pintar por aí".

Resta 1

Resquícios de sexta à noite

11 de julho de 2007

Cinema na Bahia tem futuro?

III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, no TCA. Começou segunda, termina sábado, mas só passei por lá hoje. Não por falta de vontade. Pelo contrário. Questão é que o trampo insano deixa o tempo escasso. Estive na mesa de Imagem e Mídia Digital, minha área de interesse. Acho que tô meio saturada [ou seria surtada?], não vi nada realmente interessante. Apenas uma queda de braço insossa sobre película ou digital. O que importa? Câmera na mão? Não. Com o barateamento das parafernálias tecnológicas, qualquer um se torna um videomaker. Quero saber por onde andam as boas histórias, independente do suporte. Essas me parecem cada dia mais raras. Idéias inovadoras, argumento bem pensado, projeto convincente, formato sedutor, algo que nem de longe me lembre uma 51. Queria mesmo ter visto ontem o barraco de Setaro e Navarro sobre cinema baiano. Às 20h, lá no Instituto Cerantes, na Ladeira da Barra, rolou um bate-papo com Guillermo Arriarga, o mexicano roteirista de Babel, 21 Gramas e Amores Brutos [geniais, diga-se de passagem]. Xi, mas a coisa não foi bem planejada. Escolheram uma sala pequena para um público que correspondia ao dobro das cadeiras disponíveis. Fila pra entrar, e, lá dentro, restou apenas o chão para sentar. Abortei. Quer dizer, abortamos. Melhor uma cerveja no bar de três letras e dois donos. Cerveja para refrescar quatro goelas ávidas por mudança. Em breve vamos viajar. Temos destino, roteiro e uma câmera na mão. Idéias a milhão. Resta a história, essa ainda está por contar. Leia um pouco sobre o seminário no Memorioso On Line, de Vítor Rocha e Ricardo Sangiovanni.

P.s.: A propósito, Melina fez um curta. Sempre às quartas. Rodou mês passado lá em Santa Maria, no RS. Tem blog com sinopse, repercussão e cena dos bastidores, veja aqui. Aguardo com ansiedade, não vejo a hora de assistir a história que brotou dessa guria de idéias inquietas. Quer dizer, mais uma história. São tantas. Aqui na Bahia, rabiscamos várias. Colocamos um palhaço no centro do palco. Não teve vida, mas está por aí, preso em alguma folha de papel.

9 de julho de 2007

Som, pure quality

MAQUINADO :: trabalho-solo do guitarrista do Nação Zumbi, Lúcio Maia. Com participação de Buia, do Z'África Brasil, Chiquinho Moreira, do Mombojó, Siba, ex-Mestre Ambrósio, além de Jorge Du Peixe, Dengue e Toca Ogam.

Maia e parceiros professam preces em códigos binários, em um culto à tecnologia. Este culto não deixa de ter sua parcela crítica e brincalhona, que se evidencia nas viagens sonoras dignas de odisséias no espaço. Como bem diz, 'o maior amigo do homem só entende certo e errado, verdadeiro e falso, ligado e desligado'. O computador, e não o cão, é hoje alvo de devoção. Como já disse a Nação Zumbi, computadores fazem arte e artistas fazem dinheiro. Maquinado faz pensar e faz viajar [Flávia Guerra, para O Estadão].

Ficou curioso?
Leia mais

Autores amam amar

Nietzsche diz que os amantes amam mais o amor do que a pessoa amada. Coetzee, Nadine Gordimer, Amós Oz, Alan Pauls, Will Self e, eu arriscaria, todos os autores presentes na Flip, colonizam, descolonizam, ironizam, se perdem para dificilmente se achar em labirintos de parênteses, impossibilidades, dores e encantamentos para voltarem para o assunto único: o amor.Três dias de Flip, umas dez mesas e uma conclusão entre óbvia e misteriosa: todos eles amam amar. Mas o homenageado da festa já dizia: "Só os profetas enxergam o óbvio".Alan Pauls me diz que "todo relacionamento já contém em si mesmo a futura separação" e que ela seria, na verdade, a "obra magistral de um relacionamento". E que "é preciso que haja zonas de sombra" para que a transparência que, segundo ele, é o monstro do amor, não o acabe assassinando.Nadine Gordimer diz "que os amantes enxergam com o terceiro olho coisas que só eles vêem na órbita do olho do amado". Will Self, o muso cínico da Flip, diz que "o homem amado, com quem a mulher divide as colheres da gaveta, é sempre ele o perverso, aquele encarregado de destruí-la".Fernando Pessoa (que não está na Flip) já sabia que todas as cartas de amor são ridículas. Alan Pauls, categórico, diz que "o amante é aquele que não tem vergonha de ser ridículo". E Nelson Rodrigues, gênio trágico, já sabia que "só os imbecis têm medo do ridículo". Amar, enfim, é absurdo. É entregar-se abertamente à dor e à deselegância. Mas quem sabe também seja o elixir que faltava para a maldição contemporânea da atitude "blasé" que, em nome de não cair no ridículo, é capaz até de não amar. [Noemi Jaffeenviada, publicado na Folha de S. Paulo nesta segunda-feira]

8 de julho de 2007

AMAR
Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor e na secura nossa
amar a água implícita, e o objeto tácito, e a sede infinita.


A vocês, um bom domingo. Que seja com amor, caso contrário, desista. Quer dizer, saia da inércia, modifique. A imagem peguei daqui

7 de julho de 2007

Labiríntico

Ari Coelho, again
Pesquei só um pedacinho, para ler completo clique aqui


Têm tantas pessoas no meio do meu caminho
E, em cada pessoa, tantos sentimentos
Têm tantos sentimentos no meio do meu caminho
E, em cada sentimento, tantas emoções
Têm tantas emoções no meio do meu caminho
E em cada emoção, tantas reações
Têm tantas reações no meio do meu caminho
E, em cada reação, tantas conseqüências
Têm tantas conseqüências no meio do meu caminho
E, em cada conseqüência, tantos novos caminhos
Têm tantos novos caminhos no meio do meu caminho
E, em cada novo caminho, tantas velhas certezas
Têm tantas velhas certezas no meio do meu caminho
E, em cada velha certeza, um outro novo caminho
sozinhosozinhosozinhosozinhosozinhosozinho
sozinhosozinhosozinhosozinhosozinhosozinho
sozinhosozinhosozinhosozinhosozinhosozinho

Medo da vagina

No Rio, "boyzinhos" bem nascidos espancam uma mulher, empregada doméstica e alegam terem pensado que ela era prostituta. Ainda no Rio, bonitões Globais de terceira categoria se em volvem com dois travestis e uma prostituta, dispensam os homens, e terminam agredindo a mulher e ainda roubando a sua bolsa.Em São Paulo, jovem é preso após atear fogo em prostituta.
Ainda em São Paulo, se não me engano, estudantes de uma escola espancam a servente.

Aqui, em Salvador, jovens do sexo masculino curtem uma brincadeirinha de atirar em mulheres com uma arma de um jogo chamado paintball que, além de machucar, assusta por derramar uma tinta vermelha que se assemelha a sangue. Todos os agressores, jovens e pertencentes à classe média.

Como explicar esse fenômeno? Que tipo de jovem vem sendo formado a partir dos condomínios fechados e dos shopping centers? Quem são esses covardes homens de amanhã?
Sem dúvida, a orientação familiar é fundamental na formação do caráter do indivíduo. É com o exemplo, mais do que com simples palavras, que formamos o caráter dos nossos filhos, que passamos para eles as noções de certo e errado, de justo e injusto, de digno ou indigno, ou seja, as noções de uma convivência ética com o outro.
No texto de Contardo Calligari, transcrito aqui no blog, ele fala na teoria dos "clientes especiais", e reforça-a com a defesa do pai de um dos rapazes que espancaram a doméstica, no Rio: "Prender, botar preso junto com outros bandidos? Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses?"
É assim que tem sido criada uma boa parte dos nossos jovens da classe media. São "clientes especiais" da vida. Moram bem, freqüentam boas escolas e bons ambientes, recebem boas mesadas, ganham carros zero quando passam no vestibular (geralmente de uma faculdadezinha qualquer), vivem nos shoppings, azarando, zoando e adquirindo os mais novos lançamentos de produtos eletroeletrônicos.
Enquanto isso, vai sendo formada uma legião de babacas de griffes caras, Ipods, MP3 e celulares de última geração. Uns cretinos, uns pobres coitados, medrosos, covardes, intolerantes, preconceituosos e perversos.
Mas, uma coisa, também, chama a atenção nesses casos mais recentes: o fato de as vítimas serem sempre mulheres. Por que será?
Em primeiro lugar, pela covardia. As mulheres são mais frágeis, assustam-se com mais facilidade e, via de regra, demoram mais a reagir. Mas, creio que a verdadeira razão é, simplesmente, medo de mulher, ou o que alguns chamam de "medo da vagina".
"...Ela (a vagina) angustia os homens
por ser o lugar de uma castração simbólica.
Na vagina, "não há" alguma coisa.
A vagina põe os homens diretamente diante de seu oposto.
Fala-se muito em inveja do pênis para as mulheres. Que nada.
Hoje, com a liberdade da mulher, o grande trauma é o "medo da vagina".
Os homens têm medo de enfrentar aquela entrada para o ventre,
aquela porta de caverna onde poderíamos nos perder."
Monica Azevedo é jornalista

"...Embora na mulher possa existir algum temor pelo pênis do homem,
nada se compara ao medo que os homens sentem pela vagina.
É um perigo ameaçador
porque não é visível e porque suas propriedades são estranhas.
A vagina, insaciável, que devora o desejo masculino,
libera o sangue menstrual,
acolhe o membro do homem e expulsa o feto ensangüentado."
Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga

Acho que é disso que padece parte dessa geração: "medo da vagina", medo de mulher. Afinal, que outra explicação poderia haver para essa agressão despropositada?

Eles precisam mostrar a papai que são homenzinhos, que são os machinhos do jeitinho do papai. Só que papai, com eles, bravateia as suas aventuras sexuais, que já comeu umas tantas, que não perdoa uma gostosa, que dá três ou quatro, sem tirar de dentro, que mulher é tudo cachorra e essas pérolas que alguns especimes da raça masculina costumam cultivar.

Acontece que, papai também tem medo de mulher, papai também tem "medo da vagina", mas enfrenta esse medo e, desmerecendo a mulher, consegue ter uma atuação sexual satisfatória (para ele, é claro).

Agora, os filhinhos, não. São mais frageizinhos, nessa vidinha dos seus condomínios fechados e dos seus encantadores shopping centers. Em casa, a Internet mostra as "vagabundas" em série. Todas lá, exibindo o objeto do seu terror, escancarando a tenebrosa gruta, origem dos seus mais terríveis pesadelos.

Mas ele precisa ser igual a papai, precisa mostrar que também é macho e, já que não o consegue pelas vias, digamos normais, das relações sexuais, eles batem, xingam e humilham as mulheres.
Ora, ora... lost boys... nem tudo está perdido. Se o medo de mulher é tanto, se o "medo da vagina" lhe paralisa... muda rapaz.

Quem sabe com um pênis, igual ao do papai, você não será mais feliz?...

Aliás, acho mesmo que é disso que vocês estão precisando. É isso que vocês estão buscando.
Nada contra. Só não vale é ficar batendo em mulher, porque não tem coragem de encarar um macho. E isso, em vários sentidos.

3 de julho de 2007

Inside

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
(Caetano Veloso)

Relação [simples assim]

A liberdade e o compromisso
podem ser conciliados,
se levados numa boa,
com sinceridade e compreensão

2 de julho de 2007

Dois de Julho, independência da Bahia























Hoje, cortejo cívico. Da Lapinha à Praça Municipal.





Pegada violenta - PARTE XIII

Atualizado às 23h20. Dessa vez, o fim de semana vem condensado.

Domingo de noite. Fui à praia contemplar o nascer da lua. Lua cheia, magnífica. Potente e amarelada. Enorme! No sábado achei que estava de tamanho tão gigante como nunca tinha visto antes. Lua cheia me deixa meio baratinada, bate onda, sei lá. Aguça meus sentidos, modifica a percepção. Doidura, como diria um amigo. Levei Bóris comigo. Esse final de semana ele tá de lord, praia duas vezes ao dia. No carro ele vai quietinho, espojado no banco do fundo, curtindo o som. Mano Chao na ida. Ben Harper na volta. Soltei na praia pela primeira vez. Correu bastante, lambeu minhas amigas, espanou areia com rabo e não gostou nem um pouco de sentir a presença de um pitbul. Bóris ainda não sabe correr direito, rebola a bunda meio desengonçado, é engraçado. O rabo dele rotaciona em elipse, Clarissa que notou. Ele nunca tinha ido à casa de Mônica, lá tem outro cachorro: Bob. Bob Marley, um coker preto misturado com basset, 95 anos. Bob ficou invocado e, naturalmente, na condição de dono da casa, rosnou pra Bóris. Decidi até ir embora. Mas graças à paixão de Mônica por cachorros - mil vezes superior à minha - Bóris conheceu a parte de cima da casa. Ameaçou umas estripulias no sofá, deu um pulo e despencou todo torto de cara no chão, mas encontramos um jeito de deixá-lo beeeem calminho sob efeito relaxante. O problema foi na hora de descer. Ele empacou no topo da escada, não queria descer por nada. Medo de altura nítido na cara. Foram longos minutos até convencê-lo. Fiquei irritada, Mônica, pacientemente, após várias tentativas em vão, conseguiu arrastá-lo de ré. Foi assim que ele desceu. Bóris está na fase parece mais não é. A última vez que foi ao veterinário, há pouco menos de um mês, pesava 27kg. Como todo labrador, ele é todo grande: patas, dorsal, rabo, cabeça. E a língua! A língua é enorme, haja baba! Parece adulto, por causa do porte, mas não passa de um bebê-cão de seis meses. Tem que ter muito peito pra aguentar a brincadeira. Qualquer movimento afobado gera um ematoma roxo. E, como toda criança, precisa de limites e bons exemplos para não se tornar um adulto insuportável. Ninguém tem que aturar falta de educação alheia.

Domingo de manhã. Bóris foi à praia, eu fui trabalhar. Vejam vocês como a vida é engraçada. Cachorro com vida de gente, eu com vida de cão. Sim, porque só o cão pra se enfiar em pleno domingo de sol numa redação gelada. No trabaho, ouvi algumas piadinhas sobre os ematomas. Papai contou que ele nadou horrores na praia. Se esbaldou no mar, pulou ondas, mas preferiu repousar numa poça. Tomou água de coco, correu na areia e voltou pra casa.

Sábado de noite. Grande dia. A familía chegou de viagem. Quando Bóris sentiu a cheiro, correu feito doido. Tamanha alegria, pensei que o cachorro ia se mijar. Deitou nos pés de papai com a barriga e patas pra cima, de boca aberta, língua pra fora, esperando carinho. Se esfregou nas pernas de minha irmã, pulou no colo de minha mãe, todos cheios de carinho pro cachorro. Nem tinham visto o estrago no meu corpo. "Meu Deus! Você caiu, filha?", disse mamãe abismada. - Caí? Ficaí... seu cachorro quase me mata. "O quê? Isso foi Bóris?", engrossou papai - - Tô dizendo... agora vão fazer acariação pra saber se tô querendo incrimar o cachorro. Suspendi o moleton até a coxa e antes que eu falasse qualquer coisa ... "Meu Deus!", dispararam os três simultâneamente com cara de assombro. "Por que você deixou???". - Ora, meu pai. Não vem com essa, só se eu desse com cano de pvc na cara dele. "Eu te denunciava para a Sociedade Protetora dos Animais", retrucou minha irmã atrevida em versão aspirante a Brigitte Bardot. - Então vê se educa essa merda de seu cachorro, guria! Discussão familiar a parte, Bóris agora é só alegria. Realmente, Carminha. Cê tava certa, dei mole em não ter feito o vídeo.

Sábado de tarde. Acordei pra lá do almoço, de ressaca. Moral e física. Eu disse: a sexta foi canina. E incrivelmente de madrugada piorou mais ainda. Nada de leite derramado, um banho completo pra animar. Ducha de 40min, aquela que faz os ambientalistas se contorcer, mais um prato de feijão pra dar sustância ao dia e como promessa é dívida fomos passear. Ê satisfação! Pulo pra lá, pulo pra cá, lá vai Bóris farejando todo o caminho. Quase não anda de cabeça erguida. É com a cara enfiada no chão o tempo todo. Fico atenta para não meter a boca onde não deve, mas volta e meia ele abocanha alguma porcaria. Cansei de enfiar a mão na garganta, machuca muito. A minha pele, é claro. Agora bato o pé no chão com força, olho feio, falo alto "não!" e ele cospe fora. O vizinho da rua de cima, dono de uma quitanda, se apaixonou por Bóris. Ele tem dois cachorros esquisitíssimos, uma mistura de chowchow com poodle, imagine... Talvez eles fiquem amigos.

Sexta-feira de noite. Tive um dia de cão e quando cheguei em casa, exausta, só coloquei a comida do cachorro. Troquei a água também, é claro. Fiz um cafunezinho básico e só. Nada de passeio. Sem condição. Amanhã vem a recompensa, estarei de folga, vai dar pra brincar bastante.

Pegada violenta - PARTE XII

Quinta-feira de tarde. O cachorro não estava tão calmo quanto ontem. O passeio foi longo e estressante. Bóris cismou em correr atrás de uns cachorros da rua. São três: Júnior, Piriguete e Fred. Todos vira-latas, moradores da rua, gordos e bem cuidados graças ao dono do bar da esquina, um senhor que os alimenta diariamente. A vasilha de água fica na calçada. De quebra, os três são considerados como xodós pelos freqüentadores mais cativos do bar. Deu trabalho para parar Bóris. Pensei que ia arrancar o pescoço. Ficou ofegante, sem ar por causa da pressão da coleira cada vez que dava um esticão, mas, mesmo assim, insistia em correr atrás dos cachorros e quando chegou em casa danou a morder. Apanhou com jornal e foi dormir lá fora sozinho, nada de ficar dentro de casa. Chega de falta de educação.

27 de junho de 2007

Pegada Violenta - PARTE XI

Quarta-feira de noite. Bóris está irreconhecível. São 23h29, na tv o Brasil tá tomando 2 do México. Estamos assistindo juntos a partida, creiam. Bóris está comportadíssimo, antes do jogo dançamos ao som de Maggie Bell, uma inglesa que ao meu ouvido soa como uma mistura de Janis Joplin com Billy Holiday. Não conhecia, ganhei ontem o CD. Tô curtindo... Bóris aprovou, dançou horrores. Quando voltamos do passeio ele não quis mais subir pra área, ficou aqui embaixo, brincamos bastante. Ele gosta de procurar os objetos. Discutimos um pouco e ele entendeu que é melhor ficar na linha aqui embaixo que ficar sozinho lá em cima. Grande companhia...

Pegada violenta - PARTE X

Terça-feira de tarde. Adiantei o serviço pro passeio ser vespertino. Passei o dia mirabolando planos para conter o instinto mordedor de Bóris. É fato que ele precisa me obedecer. A tática: espadinha de jornal no fucinho. Peguei a coleira e fui ao encontro com a espada debaixo do braço. Abri o portão e, para minha surpresa, encontrei um lord. Só cheirou sem pulos de estripulia. Em menos de um minuto já estava com a coleira no pescoço. Feito inédito em tempo record. Nem precisou da espadinha. Bom menino, fomos passear. Tirando a parte dolorida, a convivência com Bóris até que é divertida. É engraçado acompanhar o tino do animal, as reações, os olhares, às vezes se expressa feito gente. E às vezes também me faz passar por ridícula. No passeio estreito, em sentido oposto vinha uma senhora. Pela cara, vi que estava em pânico por causa do porte do cachorro. "Não se preocupe, pode passar, ele não morde, tá seguro". - E o que é isso no seu braço? "Ah, isso aqui? Foi o meu marido, ele é tarado".

26 de junho de 2007

Pegada violenta - PARTE IX

Segunda-feira de noite. Bóris não foi passear, mas recebeu visita. A mesma de quinta. Visita boa, paciente com cães. Brincaram até cansar. Parece que a visita também vai ficar rouxa e é mais um a concluir que ele precisa de uma pegada de jeito.

Pegada violenta - PARTE VIII

Segunda-feira de manhã. Todos no trabalho perguntaram o que aconteceu com o meu braço. Parece até que apanhei de marido tarado. "Foi o meu cachorro", justifiquei. Isso porque não viram a perna... ai ai.

Ele, de novo


P.s.: Ainda não tenho 'A foto' de Bóris. Apenas tentativas com o celular. Também pudera, ele não fica quieto...

25 de junho de 2007

Pegada violenta - PARTE VII

Domingo de noite. Confesso que a tristeza me abateu só em pensar em ir encontrá-lo. Coisa de doido. Ele querendo me ver a qualquer custo e eu querendo correr porque alegria dele iria me machucar. Penso eu: se ele ficasse quietinho, na dele, manerinho, fazendo companhia podíamos assistir filminhos juntos, tagarelar na cozinha enquanto o rango fica pronto. Mas não. Ele não ia deixar fazer nada disso e, ainda por cima, certamente me deixaria mais rouxa ainda. Pensa ele: cadê essa mulher que não aparece? Eu ali adiando o contato noturno, até que recebi visita - diferente da de quinta, cheiro inédito no fucinho dele. Aproveitei a visita e fui botar a comida. Pra minha surpresa, a vasilha de água estava rachada no meio. Bóris até ameaçou estripulias com a visita, mas a implicancia dele é comigo. Nem deu bola pra visita, de novo. Ficou no meu pé. Ou melhor, no meu braço.

Pegada violenta - PARTE VI

Domingo de manhã. Minha folga. É meu dia predileto da semana, mas hoje já acordei imaginando como seria ir colocar comida para Bóris. É que acordei dolorida, o rouxo da perna tá mais rouxo ainda. Respirei fundo, enchi a vasilha e fui encontrá-lo. Preciso repetir? Mais pulos, mais bocadas. É impressionante como ele morde certinho no calcanhar. Empurro pra lá, pra cá, falo alto, mas ele acha que tô de brincadeira e capricha nas bocadas. Tinha esquecido a coleira num lugar baixo, Bóris torou no meio. Vai ficar sem passear. O petshop só abre segunda. Socorro, acho que sem passear ele vai ficar mais eufórico que o normal.

Pegada violenta - PARTE V

Sábado à noite. Demorei uns 15 minutos até conseguir colocar a coleira e fomos passear. Bóris tem mania de colocar o fucinho no portão dos outros. Dessa vez quase se estrepa. Veio de lá um pastor belga latindo alto, virado na porra, querendo saber quem estava ciscando no território dele. Bóris cabrerou total. Nunca tinha visto. Deu um pinote, fez cara de choro. Tadinho, só tem seis meses. Passeamos bastante. Botei pra correr, chegou em casa com a língua pra fora, mas bastou beber água pra ficar insano de novo, pulando e abocanhando feito doido. Isso me estressa tanto...

Carminha disse...

TOC...TOC...TOC ...TEM ALGUÉM AÍ?
Fia, tô preocupada!
Tu não entende nada de cachorro, teu labrador não foi treinado [é cão pra acompanhante de cego e de gente idosa, pra vc ter uma idéia ...] e tu não escreveu nem sábado nem domingo ... CADÊ TU?
Vou telefonar pro periódico!
Em tempo: tu devia ter levado ele pra surfar ... labrador é louco por água e exímio nadador

Respondo...

Carminha, querida, vou tentar te acalmar. Realmente, eu não entendo nada de cachorro. Só sei que na última novela das 8, tinha uma fotógrafa de casamentos - a Isabel, lembra? Aquela que era apaixonada por aquele ator do nariz torto - que morava num sobradinho lindo, ela e um cão labrador amarelo. Nos fins de semana, eles corriam na lagoa Rodrigo de Freitas. Perfeita companhia, sucesso. Sei também que o labrador é o cão farejador predileto da polícia. Em março, após dez anos em busca de papelotes de cocaína, o Dinho se aposentou. E tem uma fêmea, que os traficantes estão doidos pra matar, porque o faro dela é danado de bom. Fora isso, Seo Ari tem dois, sabia? Bóris (tb!) e Faruk. São lindos, grandalhões. Mas lá no Principado tem área verde, jardim e várias árvores pros dois se esbaldar. E são dois, né? Um faz companhia pro outro. Deve ser um porre ser cachorro único. Ah! Tem piscina também, mas não sei se pode tomar banho assim toda hora não. Acho que seo Ari impõe disciplina. Faruk é meio doido, parece que deu trabalho pra quietar. E Bóris meu, coitado, relatei os ematomas feitos no meu braço e perna pro veterinário e ele suspeita que o cachorro esteja estressado com o sumiço do dono. Pior: ele tem ficado muito tempo sozinho, passo o dia no trabalho, só chego de noite pra levá-lo pra passear, e se tem uma coisa que labrador DETESTA é ficar sozinho. O lugar não precisa nem ser amplo - por isso são guias de cego. Cego geralmente mora em apê pequeno - mas é fundamental ter companhia. E a minha presença ele só tem à noite. É isso. Tô aqui já imaginando como vai ser quando chegar em casa. Tanto pulo, patada, mordida... um misto de alegria com ansiedade e várias doses euforia. Eu toda dolorida, fico triste só em pensar. Meu pai sempre o leva à praia, ele adora, nada bastante, mas tem medo das ondas, fica na beira. Esses dias não tenho como levá-lo, estou sem carro, e de busu não rola. Ele gosta também de água de coco, bebe uns dois quando vai à praia. Cenoura é uma das poucas coisas que o deixa parado, fica entretido não bole com ninguém. Pena que acaba rápido. Ah! O treinamento... ele foi adestrado, Carminha, aos quatro meses, pra fazer as coisas no lugar certo e obedecer alguns comandos como: pare! quieto! junto! Só que só meu pai e a guria participaram do treinamento. Ele não me obedece. Quando completar oito meses, passará por outro adestramento. Ainda tenho esperança que ele seja um cão educado.

Pegada violenta - Parte IV

Sexta-feira de noite. Aquela luta pra botar a coleira e fomos passear. Bóris tava naqueles dias de ditador em fúria, querendo determinar o caminho a ser percorrido. COmo ele tinha ficado insatisfeito com o passeio de quinta, deixei-o a vontade. Me levou para umas ruas que não tínhamos ido antes. No meio do caminho, abocanhou um pedaço de osso que encontrou no chão. Trabalheira pra cuspir. Tive que enfiar a mão na boca do cão, resultado: mais arranhões. Engraçado como Bóris tem me feito conhecer melhor o bairro onde moro. Minha relação com o lugar sempre foi de entra-e-sai. É meu pouso, minha morada, mas nunca futuquei a rua nem mesmo tinha prestado atenção em várias casas, prédios e carros que sempre estão por aqui. Tem também muita gente jovem, turminha dos 15 aos 20 e poucos. Se encontram todo dia de noite na esquina de um prédio verde no topo da rua. São umas 10, 12 pessoas - rapazes e garotas. A Bóris sempre rende elogios. "Nossa, como ele é lindo". "Que pêlo bonito". "Tá muito grande pra seis meses". E por aí vai. Descobri que aqui na rua tem também muiiitos cachorros. Uns três de rua e vários em apartamentos e casa. Sempre têm vários donos passeando com seus dogs. Pelo que tenho notado, Bóris é o mais desassossegado.

Ele, o cão


Pegada violenta - Parte III

Quinta-feira de noite. Bóris recebeu visita. Ele obedeceu mais a visita que a mim. Não gostei disso...

24 de junho de 2007

Batida violenta - PARTE II

Quinta-feira de tarde. Sai do trabalho direto para casa, sem desviar o caminho, preocupada com Bóris, que já não tinha ido passear de manhã com meu pai, como ocorre todos os dias. Céu nublado, nuvens carregadas em tom cinza escuro anunciavam chuva forte a caminho. Me apressei e pedi em pensamento que o motorista do ônibus fosse rápido. Queria chegar em casa antes da chuva pra passear com o cachorro. Preces ouvidas, nem troquei de roupa apenas tirei a mochila dos ombros, peguei a coleira e subi para buscá-lo. Parêntese: Bóris habita a parte de cima do apartamento, uma área modesta de uns 150 metros quadrados, e faz visitas periódicas ao resto da casa. Lá estava ele, o labrador negro, seis meses, cara de dengo, espojado no chão. "Passear, chorro. Bora!", bastou anunciar o motivo da minha presença que ele se ergueu com prontidão. Abri o portão, que folia. Pulou de um lado pro outro, me babou toda. Normal, normal... Desceu as escadas picado. Lá vou eu atrás de Bóris com a coleira na mão. Rodopiou na sala, se esfregou no tapete de motivo inca, cor azul com franja dourada, da minha mãe. Ui, tapete caro, imagina se estraga... Correu pra cozinha, quase derrubou a fruteira, se bateu nos móveis de madeira da sala. Bóris não tem a mínima noção de espaço, é super estabanado, o rabo não pára de balançar um único segundo. Ameaçou entrar nos quartos, mas isso eu não deixei não, embora a coleira ainda estivesse na minha mão. "Passear, cachorro. Tem que botar a coleira", bradei. E Bóris nada de ficar quieto. Prendi o corpo dele com as pernas, segurei a cabeça como se fosse dar um mata-leão, e só assim pra colocar a coleira no pescoço do cão. A essa altura meu braço já estava todo arranhado cheio de marca dos dentinhos dele. Mas é isso mesmo, pensei comigo. Vamos lá, pra rua. Desceu as escadas educadamente, farejando de cabeça baixa pelo canto direito. Parêntese 2: Moramos no último andar de um prédio de 3 andares, acesso de escada, sem elevador. Até os 5 meses Bóris só descia no colo do meu pai. Custou até descer sozinho. Segundo o veterinário, o labrador filhote não tem estrutura para suportar grandes impactos. O ideal é que até os oito meses, pelo menos, ele não suba ou desça escadas de nenhum tipo. Mas um dia ele desceu sozinho, por conta própria, latindo forte, quase chorando de medo. Foi assim que surgiu o portão de madeira. Mas vamos voltar ao primeiro dia de passeio, assim que põe o fucinho pra fora do prédio, naturalmente, Bóris vai farejando tudo o que encontra pela frente. Pára de poste em poste, a cada esquina uma novidade. Subimos a professor Artur de Macedo, rua onde moramos, e quando chegamos na primeira quadra do Jardim Joana D'Arc, começou a chuviscar. Puxei uma corrida pra voltar logo pra casa, ele acompanhou o ritmo numa boa, com cara de satisfação, inclusive. Chegamos ao portão do prédio com pingos grossos martelando em nossas cabeças. Toda vez quando volta do passeio, Bóris carrega a coleira na boca e sobe as escadas até alcançar a porta de casa. Mas nesse dia, atravessou o portão e empacou no pé da escada sem se importar com a chuva, deixando nítido que estava insatisfeito com a duração do passeio. "Oxe, cachorro, vai ficar aí é?". Como não quis papo pra subir, deixei a porta de casa aberta até que ele mudasse de idéia. Passaram uns cinco minutos, e Bóris chegou em casa enxarcado, virado no estopor. Levei várias cabeçadas e patadas até conseguir seca-lo. Subi pra botar a comida com ele colado no meu rastro, pulando, abocanhando meu calcanhar, panturrilha, cotovelo e ante-braço. Vocês não imaginam o estrago no corpo que é a brincadeira de um cachorro grande e pesado, 30 quilos, como Bóris. Quanto mais você tenta parar, quanto mais você empurra, quanto mais você fala alto, mais ele gosta e é aí que não pára mesmo. Dito e certo: levei uma mordida daquelas na cocha direita. Só não arrancou o tampo porque labrador não tem a pegada malígna do pitbul, por exemplo. É cão de caça, não de guarda. Não ataca, mas incomoda e faz estrago ao suplicar por atenção. Até conseguir colocar a comida, a água, fazer engolir o comprimido de cálcio, tirar a coleira, limpar a área e fechar o portão, foi um maratona que além de me deixar impaciente e exausta, resultou em vááááárias marcas rouxas pelo meu corpo, em especial no antebraço e pernas.

Batida violenta - PARTE I

Quinta-feira de manhã. Feriado junino, todos viajaram. A família fez as malas e botou o pé na estrada sem previsão de retorno. A mim, prisioneira de um patrão, além de ir trabalhar no vespertino digital, me coube a tarefa de cuidar de Bóris, o cão da casa. Detalhe: anunciaram a odisséia de supetão, na véspera da viagem. "Não esqueça de colocar a comida três vezes ao dia. Tem que trocar a água também, mas dê um intervalo entre a água e a ração, porque ele come muito rápido e pode ter uma contratura estomacal", orientou papai. Credo, pensei comigo. Tudo bem, não se preocupe não vou matar o cachorro. "Ah, tem que dar o cálcio todo dia de noite, vê se não esquece". Certo, acrescentei à lista de tarefas caninas. "E tem que passear com ele todos os dias". Tá bom, disse. Minha irmã - a dona do cachorro em parceria com meu pai - na hora de partir fez lamento com cara de choro: "Ô, Tássia. Cuide dele, não esqueça não". Tá bom, garota. Tá achando que sou irresponsável, que saco, é só um cachorro, retruquei. "Bom São João, filha. Fique com Deus", despediu-se mamãe. Recomendações delegadas, beijos e abraços devidamente propagados na despedida, segui para o trabalho sem nem imaginar o tormento que me aguardava.

Agouro

Há alguns dias circula aos quatro ventos que Toinho tá com o pé na cova. Burburinhos dão conta de que o causo é grave e que dessa vez não tem escapatória. Será? Hum, sei não... Na última quarta-feira, o neto e uma das netas foram as pressas para o Incor, onde o senador está internado por conta de um quadro de insuficiência cardíaca, além de disfunção renal.

Ouvi vários comentários na rua sobre o assunto. Uns garantem que ele já foi, outros seguem ávidos por novidades. Jornais de todo o país não param de ligar para a redação do Correio da Bahia na tentativa de confirmar alguma informação convincente.

Deu na Folha de ontem que ACM recebeu a visita dos familiares e, de acordo com o filho mais velho dele, Antonio Carlos Magalhães Júnior, o pai falou ao telefone, leu jornal e quis saber de tudo que estava ocorrendo no Congresso, principalmente do caso do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mais típico impossível...

Nessa de já foi ou quando vai, destaco aqui um cometário feito minutos atrás.

- Sim, me conta uma coisa... é verdade que ACM morreu?
Eu: Bom, deu na Folha que ele tá se recuperando...

- Me disseram que ele morreu e iam abafar ate o dia 2 pra virar o DIA DE ACM, já que ele odeia o nome DOIS DE JULHO.

22 de junho de 2007

Myself


Hoje, na Escola de Teatro da Ufba

16 de junho de 2007

Quinta-feira [full power]


Impossível acreditar na imortalidade das almas mesquinhas >>
Carlos Drummond de Andrade

Quarta-feira [away]


Se precisamos de paciência para nos suportamos , quanto mais para suportamos os outros >>
Carlos Drummond de Andrade

13 de junho de 2007

A pauta não mudou

Jô Soares acaba de encurralar o Ministro da Saúde. Enquanto falavam sobre o panorama da saúde pública no Brasil, aparece no telão - aquele que fica bem em cima da cadeira do entrevistado - uma foto de uma casinha de palafita, estrutura de madeira, uma porta uma janela, coisa pobrezinha pobrezinha, lá longe bem ao léu. E o gordo disparou: Ministro, isso é um posto médico. Isso é um posto médico, ministro? O ministro, na beca, gravata bonita, respondeu na sola: Não, Jô. Isso é uma estrutura, uma construção típica do norte do país." Mas aí funciona um posto médico, ministro. Milhares de pessoas dependem dele. Por que isso acontece no Brasil?", retrucou. "Olha, Jô, o Brasil apresenta disparidades no sistema de saúde pública que vão de unidades de referência como o Incor [Instituto do Coração em SP] a estruturas como essa que você acabou de mostrar pr'gente. Isso ocorre porque desde a década de 60 com o crescimento dos grandes centros urbanos, a expansão das favelas e, conseqüentemente, a falta de investimento em saneamento básico... blá blá blá, blá blá blá..."

A questão que trago aqui não é a relevância da resposta do ministro para um problema que assola o nosso país e que, naturalmente, é do conhecimento de vocês, meus amigos-leitores. Vamos falar de uma realidade. Estive na ilha de Marajó em agosto de 2005 com Fábio Caraciolo, meu amigo Bito. Fomos lá no extremo norte do país conhecer aquele pedação de terra [do tamanho da Bélgica e da Holanda juntos]. Não havia em nosso imaginário outra referência àquela ilha que não fosse o que aprendemos durante as aulas de geografia no ginásio: casa dos búfalos na foz do rio Amazonas. Mas como já estávamos crescidinhos - eu com 21, ele com 24, e a visita em questão não era um safari turístico e sim uma expedição missionária que resultaria em uma fotoreportagem, nosso material de conclusão de curso, o famoso TCC [olha a responsa] - nos abastecemos de toda informação sobre o local disponível em livros, pesquisas do IBGE, mapas, páginas na internet e conversas com pessoas que haviam passado por lá. Denizita, inclusive, quando soube da viagem, ficou toda prosa, me encomendou jarinas [uma semente típica da região, imita um marfim, lindinha pra fazer bijou], mas acabou que eu nem trouxe [Perdona, mi querida. Não foi por má vontade, foi falta de tempo mesmo].

Enfim, nos abastecemos de informação, nos viramos em dinheiro [$$$], arranjamos máquina emprestada [salve, salve Luciano Andrade, grande fotógrafo e sua nikon F4], juntamos a nossa máquina com a da faculdade, teleobjetiva, um laptop, gravadores digitais, mais câmera portátil pra fazer vídeo, duas redes, repelentes [e vacinas, é claro], botamos tudo na mochila e fomos. Fomos, meus caros... de avião, de barquinho, de barcão, de bicicleta, a pé, de moto, carreira de búfalo, de carona em pau de arara. Fomos para a linha do equador, mais precisamente a zero graus e 39 minutos, debaixo de um sol desgraçado, úmido, sem direito a um resquício de sombra naquelas planícies com dimensão a perder de vista. Água por todos os lados, inclusive debaixo das casas, difícil mesmo era a potável para beber sem medo. Passei mal pacas, sol na moleira bate onda, mas isso eu conto outro dia.

Vamos voltar para a questão primordial, o posto médico. Tinha um igualzinho ao que passou no Programa do Jô em frente a casa das irmãs fraciscanas, onde ficamos hospedados por 15 dias, na Vila de Jenipapo. Medonho, gente. Medonho. Só vendo pra crer. Aliás, em tempo: tudo o que lemos sobre Marajó antes de viajar, quando aportamos na ilha, logo de cara, percebemos que a realidade era 5x mais dura do que os livros contavam, a começar pelos meios de transporte.

Todo dia eu e Bito passávamos pela porta do posto e ficávamos imaginando como seria por dentro aquela estrutura precária, que insistiam em chamar de ambulatório. Aquilo era pauta nua e crua diante dos nossos olhos, não tinha como deixar escapar. O engraçado é que víamos diariamente o entra-e-sai de crianças, adultos e velhos no local. "A cadeira do dentista está quebrada, você levanta e cospe pela janela", contou ir. Zileide, uma noite durante o jantar. Em tempo novamente: falta de comida a gente não pode reclamar. As freiras cozinham bem demais, tudo bem que a comida típica é meio esquisita, mas tinha pão, bolo, queijo, cuzcuz, arroz, feijão e carne [de búfalo, é claro]. Levamos ovos, mas depois de ficar 18h no porão do barco que nos levou de Belém a Jenipapo, os ovos cozinharam e acabamos jogando fora.

Fizemos várias pautas - educação, saneamento básico, lazer, moradia. O posto médico foi a última. Você entra na casinha e pergunta: ué, cadê as coisas? POr "coisas" entende-se: médico, enfermeira, maca, aparelhinhos dos médicos, remédios, ambulatório, uti, sala de parto, sala de cirurgia. Nada. Nadinha, nothing, niente, necas de bitibiriba. Tinha uma cadeira roída por ratos, uma maca sem lençol, uma geladeira velha, uma pia sem torneira e sem tubulação e uma prateleira com remédios, prontuários e produtos de limpeza, assim, tudo juntinho sem distinção no mesmo espaço. Ah! Tinham também váááárias teias de aranha. Pelo porte da seda tecida, imagino o tamanho das bichas.
Bom, destaco aqui o pedaço da reportagem que aborda o assunto, material feito em 2005.

A pauta

A dificuldade de locomoção interfere diretamente nas condições de vida do marajoara. Compromete, até mesmo, o acesso ao serviço médico. Na Vila de Jenipapo existe apenas um posto de saúde. O médico que fazia o atendimento deixou o local no início de agosto e não há previsão de substituição. “As pessoas gostavam do doutor, mas ele recebeu uma proposta de trabalho melhor, e a prefeitura não conseguiu cobrir a oferta. Somos o quinto menor município do Pará, com fundo de participação de apenas 0,6%”, justifica a secretáriade educação do município.

Instalado num imóvel cedido pela Diocese de Ponta de Pedras, o posto médico possui infra-estrutura precária. “A cadeira do dentista jamais foi usada”, diz Elza Gemack, funcionária do posto. O estofado foi roído por ratos e os botões estão inferrujados. “Não tem dentista, mas tem gente que extrai dente em casa sem anestesia”, revela irmã Sirleide.
Faltam remédios dos mais simples - carência geralmente suprida com o uso de plantas medicinais, porém, em alguns casos, apenas um chá não é suficiente.

Foi o que aconteceu com Cristiano, 17 anos. O rapaz era um dos mais engajados no projeto da brinquedoteca e de repente se ausentou da atividade. Todos estranharam o sumiço. Três dias depois, o padre Roberto o encontrou deitado numa rede, na casa de uma tia, com febre alta, moleza e dores no corpo [foto à direita]. Bastou uma dose de antitérmico que no dia seguinte o garoto estava de pé.

Como o médico foi embora, uma enfermeira de Santa Cruz vai uma vez por semana a Jenipapo. “Tem também duas moradoras da vila que sabem fazer curativo e ficam em casa de sobreaviso caso alguém se machuque. Mas se o corte for profundo tem que encaminhar para Santa Cruz”, conta.

Nas situações de emergência, o doente fica confinado a sofrer durante longas viagens de barco de Jenipapo até Belém. Detalhe que a viagem de barco acontece apenas uma vez por semana e a duração do percurso depende da cheia do rio. Se o caso for realmente grave, diz Arlete, um avião leva o paciente até a capital. “Cada viagem custa R$ 1 mil e por mês só podem ser feitas cinco para não estourar a cota”, diz.

O curioso é que enquanto os doentes agonizam em viagens que duram mais de 15 horas, sem conforto, a caminho do médico, a reportagem descobriu que o prefeito do município, Fernando Lobato, reside em Belém e utiliza com cunho pessoal as cotas das viagens de avião, que seriam destinas ao transporte de pacientes. A informação foi confirmada por Aroldo Malato, secretário de Lobato. "O prefeito está na capital, mas vem para a ilha. Eele tem uma fazenda e vem toda sexta-feira com o avião da prefeitura".

Com relação ao saneamento básico, é possível observar que nos arredores da vila a situação também é grave. Crianças costumam brincar próximo a locais com água parada, onde não há rede de esgoto [foto acima] o que facilita a contaminação por vermes e bactérias.
As mulheres que dão a luz em Santa Cruz voltam para casa carregadas numa rede [foto à esquerda]. O gesto poupa a parturiente de esforços desnecessários e revela um pouco mais da rotina resignada do marajoara, conhecida apenas por aqueles que habitam o local.

Ela e eu em um tempo só

"Sou do tempo da amizade colorida. Do rolo. Do tô junto. Tá comigo. Tô com ele. Sou do tempo até do amor livre [misericórdia!]. Também teve cacho e tô ficando. E também segredos. Sem títulos". Palavras dela. Digo eu: me 2.

Terca-feira [safely]


Necessitamos de luz para os atos cotidianos >>
Carlos Drummond de Andrade

12 de junho de 2007

+ Namorados

Recomendo Melina Zucolo Guterres. Vale a pena

Manuela Saénz, o amor de Simón Bolívar

Hacía tiempo que él no confiaba en nadie más que en ella. Le dejaba en custodia algunas reliquias sin más valor que el de haber sido suyas, así como algunos de sus libros más preciados y dos cofres de sus archivos personales. El día anterior, durante la breve despedida formal, le había dicho: "Mucho te amo, pero más te amaré si ahora tienes más juicio que nunca". Ella lo entendió como otro homenaje de los tantos que él le había rendido en ocho años de amores ardientes. De todos sus conocidos ella era la única que lo creía: esta vez era verdad que se iba. Pero también era la única que tenía al menos un motivo cierto para esperar que volviera. [El general en su laberinto, Gabriel García Marquez]

Canção de namorados

O dia dos namorados
para mim é todo dia.
Não tenho dias marcados
para te amar noite e dia.

O dia 12 de junho,
como qualquer outro, diz
(e isso dou testemunho)
que contigo sou feliz.

Carlos Drummond de Andrade

Segunda-feira [return to]


Circunstâncias infernais da vida habilitam a compreender a idéia de inferno >> Carlos Drummond de Andrade

La caza de amor es de altanería
[Gil Vicente]

11 de junho de 2007

Domingo [the best]

Limpeza de consciência nem sempre coincide com limpeza de corpo, que é mais exigente >> Carlos Drummond de Andrade

10 de junho de 2007

Facas e espadas se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e corentes se arrebentem sem o meu corpo amarrar

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
[Chico Buarque e Vinícius]

Nostalgia




Em Chantagem e Confissão [Londres, 1929], de Hitchcock, Alice White [Anny Ondra] logo após matar o pintor-estuprador volta pra casa correndo e se atira na cama pra simular que passou a noite toda ali, quietinha, dormindo no sono dos deuses. A ama de casa aparece para acordar Miss White - que na verdade não tava dormindo coisa nenhuma. A moça levanta da cama e vai até a prateleira do quarto pentear os belos fios loiros. Ajeita o cabelo e assim que termina o penteado abre uma latinha de talco. Cheia de charme passa levemente a esponjinha felpuda pelos braços e maçãs do rosto. Acreditem, juro que o cheiro saiu do tubo da tv direto para a minha narina. Serio mesmo, memoria olfativa, bateu uma saudade de cheirinho de talco. Aqui em casa mamãe usava, tia Dora também, sempre tinha uma latinha no armario do banheiro. Lembro quando tinha uns seis, sete anos, Safira ainda era anjo nessa época, os beijos de boa-noite de minha mãe tinham cheiro de talco. Pergunto eu: cadê o talco? Sumiu? Por que? Acho que ninguém usa mais talco a não ser em bumbum de bebê. Eu achava aquela esponjinha a coisa mais gostosa do mundo, sensação macia quando tocava na pele, como se fosse fazer cócegas mas não fazia. Recordação inocente que acaba de esbarrar em uma notícia escabrosa, confira: Um californiano foi sentenciado a 21 meses de prisão por enviar pelo correio três cartas com ameaças falsas de antraz. Na verdade, as cartas eram polvilhadas com talco perfumado da grife de lingerie Victoria's Secret, constatou a perícia. Fonte: FOlha de S. Paulo

Oxi, cadê Carminha? Sumiu do mapa foi?

CARMINHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!
Eu tenho certeza que ela tá acordada a essa hora

Pra Seo Ari

Terminei de ler hoje de manhã "Crónica de una muerte anunciada", de Gabo. Pra minha surpresa, Santiago Nasar, o defunto esquisito que dá origem a todo o enredo, tinha hepatite, embora a morte anunciada não tenha nadinha a ver com isso. Nasar foi morto por um casal de gêmeos com golpes brutais de faca de matar porcos. Arma branca, como diz a polícia daqui. Mas repare o laudo da autópsia:
"La masa encefálica pesaba sesenta gramos mas que la de un inglés normal, y el padre Amador consignó en el informe que Santiago Nasar tenía una inteligencia superior y un porvenir brillante. Sin embargo, en la nota final señalaba una hipertrofia del hígado que atribuyó a una hepatitis mal curada. "Es decir - me dijo -, que de todos modos estava enfermo". El doctor Dionisio Iguarán, que en efecto le había tratado una hepatitis a Santiago Nasar a los doce años, recordaba indignado aquella autopsia. "Tenía que ser cura para ser tan bruto", me dijo. "No hubo manera de hacerle entender nunca que la gente del trópico tenemos el hígado más grande que los gallegos." O sr. que anda bem informado sobre o assundo, isso é lenda, né Seo Ari?

9 de junho de 2007

Livros

Os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
(...) Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Caetano Veloso

Voltando a aquela história de que a dor incentiva a reflexão, nesses últimos três dias de repouso absoluto em casa para cuidar do ombro, parada à força, como disse a Pró, aproveitei para fuçar alguns livros, filmes e músicas. É impressionante como a compreensão flui quando você se dedica a leitura sem interrupções do mundo vasto mundo que arde lá fora. Coisa boa varar a madrugada por pura sede de desvendar o assassinato de Santiago Nasar em "Crónica de una muerte anunciada", de Gabo. E logo na seqüência reler trechos de "O Evengelho Segundo Jesus Cristo", de Saramago, só para fixar na memória novas definições para palavras como sonhos, solidão e amor. Ou então assistir uma sessão corujão-suspense com os clássicos de Hitcock na companhia adorável de mi madre querida e um tablete de Toblerone, o nosso chocolate predileto. Acordar quando o corpo pede sem se preocupar com o toque do despertador e passar o dia de pijama e meias com vários livros abertos ao mesmo tempo alimentando uma literatura íntima escrita a mão no caderno. Tudo baseado em fatos reais. No som vários CDs: Miles Davis, Bob Dylan, Madeleine Peiroux, Gil, Vinicius e Toquinho, Chico - muito Chico, Tom Jobim e Caetano Veloso. Trilha sonora que me deixa em estado de graça, concentração para pensar na vida. Costumo dar permissão à rotina e ela é cruel. Me engole com discrição e antes que eu me dê conta da intensidade dos acontecimentos muitos fatos já estão consumados. Parece um rolo. Compressor, é claro. Sempre tive fascínio por livros. Desde a infância. Acho que devo isso aos meus pais, vó Zilda e Vô Wilson. A mesa da sala - mesa grande de madeira, seis lugares - sempre esteve cheias de livros, pra irritação de mamãe, quando chegava e queria ver o almoço servido. "Mas a mesa está ocupada, dona Norma. Não tinha onde colocar os pratos", defendia-se Jaciara, uma moça de pele parda que trabalhou muitos anos em nossa casa. Como os livros ficavam abertos, ela tinha receio de desmarcar alguma página. Preferia não mexer em nada. Os versos de Caetano exibidos logo acima traduzem com perfeição minha relação com os livros. "A frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que pode lançar mundos no mundo". Essa possibilidade de ser transportado para outras realidades é o que fascina e faz querer mais e mais e mais. Ouvi essa música hoje de tarde, enquanto chovia lá fora. Me fez lembrar o filme de Sijie Daí "Balzac e a costureirinha chinesa", uma tradução genial da importância do livro na vida de uma pessoa. Transformação, abertura de consciência, poder de articulação, incentivo a devaneios, alimento cultural e, principalmente, fortalecimento individual.

8 de junho de 2007

Filosofia riveriana

"Bons jornalistas fazem perguntas danadas né? Pois bem. Falando de "Ao Vivo" [são tantas cagadas históricas ...] um jornalista me perguntou: "E quando dá um branco? Faz o quê?" Euzinha [Denis RiFera], craquissima de Vivo, respondi na tampa: "ESPERA PASSAR".Insonia é a mesma coisa. Tristeza é mesma coisa. Falta de grana é a mesma coisa. Tudo é. Tudo vai passar. A questão é o que fazer até lá... Já passou?" Creio que a filosofia também se aplica para a dor. Vai passar, eu sei. Até lá fico na companhia de Gabo, Saramago, Hitchcock e uma cacetada de filmes nacionais. Em breve divulgo a lista.

7 de junho de 2007

Ouça, ma chérie

INFINITO PARTICULAR
(Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes)

Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

Dói, ah como dói...

Em casa, de molho, graças a uma puta contratura muscular no ombro direito, que irradia para o pescoço e braço, conquistada por carregar continuamente os 4,2kg da máquina fotográfica + as 7 horas diárias (em média) em frente ao computador + a cadeira empenada da redação + toda carga de pressão e estresse acumulada diariamente no trabalho. Ah! + os 25kg de ferro puxados três vezes na semana na academia. E eu achava que estava fortalecendo a musculatura... bom, o músculo, coitado, não gostou nada disso. Eu tampouco. Já diziam os orientais: dor inspira a reflexão. Essa me pegou de supetão. Começou como um incomodozinho inocente, um travamento discreto. Fiz queixa e alguns até insinuaram que seria falta de... ... ... vocês sabem... embora eu garantisse que não era o caso. Uma semana depois, pimba! Remedinhos? Sim, pra passar a dor + recomendações médicas importantíssimas: mudar de emprego, massoterapia chinesa, natação com pilates e nada de musculação. O médico garante que fico boa logo se fizer tudo direitinho. Tô seguindo à risca. As três últimas já estão em prática, resta a primeira. Vovó mandou uma garrafada de arnica made in Jequié por ela mesma. Tô usando todo dia, mas a dor tá aqui, firme e forte. Enquanto isso, penso na vida.

Los hermanos 2

Brigados coisa nenhuma. Deu no JN hoje: O presidente venezuelano agradeceu as palavras do presidente Lula, que o chamou de "parceiro" e disse que Chávez não era risco para a América Latina depois que o Congresso brasileiro enviou um requerimento de apelo para rever a decisão de não renovar a concessão da RCTV.

"Estamos num universo
em que existe cada vez mais informação
e cada vez menos sentido"
[Jean Baudrillard,
em Simulacros e Simulações. Pesquei do Diário ]

3 de junho de 2007

Herança às traças

Documentos que deveriam estar preservados, foram danificados pela má conservação no Arquivo Público do Rio de Janeiro. São cartas, fotos e livros sobre personagens importantes da história do Brasil. O prontuário policial de Jorge Amado, de 1942, está no Arquivo Público. Agentes a serviço do governo monitoravam todos os passos do escritor baiano. O mesmo acontecia com o guerrilheiro Carlos Lamarca, morto por tropas do exército em 1971. Cartas trocadas por Olga Benário e Luis Carlos Prestes também foram guardadas. Prestes aparece numa lista de comunistas procurados na década de 50. Os documentos, que guardam parte da memória do Brasil, estão ameaçados. Fazem parte do acervo do Arquivo Público do Rio de Janeiro, que há nove anos funciona de forma improvisada num prédio centenário. O telhado do depósito está desabando. A fiação elétrica é aparente. Numa sala, pedaços de gesso despencam do teto. Pombos até fizeram ninho. Cupins e mofo também estragam o material. O livro, do século 19, tem a lista de presos do Império. O papel já está danificado por fungos. Quem perde com a degradação do arquivo são os próprios cidadãos. Hoje quem mais consulta esses documentos são pessoas que buscam, na história, provas para que tenham direitos reconhecidos. É o caso, por exemplo, de vítimas de repressão da ditadura militar. A primeira pista pode estar numa das gavetas. Os arquivos do antigo Dops, a Delegacia de Ordem Política e Social, guardam dois milhões de fichas com nomes, sobrenomes e apelidos de presos políticos. Papéis que deveriam estar em ambiente climatizado, envelhecem no porão sem cuidados especiais. O Brasil, como um todo, perde porque deixa de ter uma área de informação para pesquisa histórica. Livros de história, reportagens, matérias são feitos a partir de fontes primárias”, afirma Daniel Beltran, presidente da Associação de Arquivistas. Paulo Knaus, diretor do Arquivo Público, admite os problemas. Diz que as metas são a construção de uma sede própria e a contratação de pessoal. “O arquivo é uma peça fundamental dessa estrutura que garante informação ao cidadão”. [Reportagem do Jornal Hoje. Veja o vídeo aqui] Lamentável. Vergonhoso.