5 de agosto de 2009

Sol-das-almas

Sempre tive dificuldade em colocar título em fotos.
Uma imagem, um momento, congelado numa moldura há muito o que dizer.
Seja fotografia noticiosa ou abstrata. Incluo também os retratos.
O pesadelo do título sempre vinha a cada nova fotografia.
Por que limitá-la em poucos caracteres?
Cheguei a pensar que seria "criminoso" colocar título em fotos.
Para mim, era como se estivesse restringindo a possibilidade de quem vê [a foto] viajar numa interpretação diferente da minha.
O que eu vejo não é necessariamente o que você vê.
Se aponto um ponto fixo e olhamos juntos para o mesmo lugar, pode ser bem diferente a nossa percepção.
E o que você vê é de fundamental importância: acrescenta em mim.


Hoje, de forma diferente e inesperada, ganhei um título.
Junto com ele, versos que traduzem uma sutil sintonia.
Republico a foto e como novidade a poesia de Carmezin.


















Carmezin

os paralelepípedos merecem
o caminhar de pés descalços

e a alma, nua,
descansa sentada sob o banho de amarelo

a rua da saudade
é soldada por amores
rascantes

enquanto as folhas singram
e sangram de levinho
- sente-se, tome um vinho

quando a luz cair
é tempo de retomar
o que nunca clareia
essa areia no sapato
rua-rua-rua
de saudade

Um comentário:

Anônimo disse...

Sabia que a palavra sol-das-almas está no dicionário?

Aurélio – Arrebol da manhã ou da tarde. “Deitada molengas em folhas macias! / Na sombra rajada de bananeiras lentas / Ilunimadas por um sol-das-almas” (Ascenso Ferreira, Catimbó e Outros Poemas, p. 106); “Uma faixa de luz da serra à fronte / – Sol-das-almas lhe chamam – aparece, – Mas logo esmaia, e é trevas o horizonte.” (Alberto de Oliveira, Poesias, 1ª série, p. 226)

Pois bem: a foto está batizada! Valeu pelo espaço!

Abraço.